Vacina da gripe: por que existem versões diferentes e qual se aplica a cada idade
A vacina da gripe existe em mais de uma versão, e não é uma escolha de preferência: cada uma foi desenhada para uma situação. Este texto explica o que muda entre a trivalente, a tetravalente e a de alta concentração, o que a rede pública oferece em cada faixa etária e por que uma criança que nunca se vacinou pode precisar de duas doses no primeiro ano.
Revisão técnica: Dr. Joelson Reis Ciacci · CRM-MG 18295 · RQE 10983
Publicado em 26/07/2026

Gripe não é resfriado
A confusão entre os dois atrasa muita decisão.
O resfriado é causado por outros vírus, começa devagar, se concentra no nariz e na garganta e raramente derruba alguém. A gripe é causada pelo vírus influenza, começa de forma abrupta, com febre, dor no corpo e prostração, e costuma tirar a pessoa de circulação por vários dias.
A preocupação maior não é o quadro em si. É o que ele pode desencadear. Pneumonia é a complicação mais conhecida, mas a gripe também descompensa doença crônica do coração e do pulmão, e é por isso que ela pesa mais em quem já convive com uma dessas condições.
Por que a vacina é anual
Não é porque a proteção acaba em doze meses. É porque o vírus muda.
O influenza sofre alterações contínuas na sua superfície, e as cepas que circulam em uma temporada não são exatamente as da anterior. A Organização Mundial da Saúde acompanha essa circulação e define, a cada ano, quais cepas devem entrar na fórmula de cada hemisfério.
Por isso a dose do ano passado não vale para este. Não é reforço, é uma vacina com composição diferente.
As versões que existem, e o que muda entre elas
Três formatos circulam no Brasil hoje.
A alta concentração existe porque a resposta do sistema de defesa muda com a idade. A mesma vacina que gera boa resposta aos 40 anos gera resposta menor aos 70. Não é falha da vacina, é como o organismo envelhece. A versão com mais antígeno foi desenhada para compensar isso.
Todas são inativadas. Nenhuma contém vírus capaz de causar a doença.
- Trivalente. Cobre três cepas, duas do tipo A e uma do tipo B. É a versão usada na campanha da rede pública.
- Tetravalente. Cobre quatro cepas, duas do tipo A e duas do tipo B. É a versão da rede privada, disponível a partir dos 6 meses de idade.
- Alta concentração. Carrega mais antígeno por dose que a versão padrão. Foi desenvolvida para uma situação específica, e é licenciada exclusivamente para 60 anos ou mais.
O que a rede pública oferece e o que muda na rede particular
A comparação abaixo reúne o que muda entre os dois caminhos.
A campanha pública prioriza quem tem maior risco de complicação. Quem está fora desses grupos não fica sem vacina, fica sem vacina gratuita.
| Rede pública (SUS) | Rede particular | |
|---|---|---|
| Versão disponível | Trivalente | Tetravalente e alta concentração |
| Cepas cobertas | Três | Quatro na tetravalente |
| Faixa etária | Grupos definidos na campanha anual | A partir dos 6 meses, sem restrição de grupo |
| Criança pequena | Contemplada na campanha | Contemplada |
| Gestante | Contemplada na campanha | Contemplada |
| Adulto fora dos grupos | Não contemplado | Contemplado |
| Idoso, alta concentração | Não contemplado | Contemplado, a partir dos 60 anos |
Quem tem indicação, por faixa etária
A partir dos 6 meses. Essa é a idade mínima. Abaixo disso não há vacina licenciada, e é por isso que a vacinação da gestante importa: ela também alcança o bebê nos primeiros meses de vida.
Crianças de 6 meses a menos de 9 anos. Aqui está a exceção que quase ninguém conhece. Quem nunca se vacinou contra a gripe recebe duas doses no primeiro ano, com intervalo de quatro semanas entre elas. A partir do ano seguinte, passa a ser uma dose anual, como para todo mundo.
Gestantes. São grupo prioritário. A gripe tende a ser mais grave na gestação, e a vacinação protege a mãe e alcança o bebê no início da vida.
Adultos. Dose anual. A indicação não depende de ter doença crônica, embora quem tenha uma tenha mais a ganhar.
A partir dos 60 anos. Dose anual, com preferência pela versão de alta concentração. Na indisponibilidade dela, a orientação é usar a vacina influenza disponível para a idade. E nesse caso, em situação epidemiológica de risco, cabe considerar uma segunda dose a partir de três meses após a dose anual.
Quando vacinar, e o que fazer se perdeu a campanha
A campanha nacional se concentra no outono, antes do pico de circulação do vírus no inverno. Vacinar antes é melhor, porque o organismo leva cerca de duas semanas para montar a resposta.
Mas perder a campanha não encerra o assunto. O vírus circula ao longo de todo o inverno e ainda depois dele, e a vacinação continua fazendo sentido enquanto houver transmissão. A dose atrasada protege menos tempo naquela temporada, não protege menos.
O que não faz sentido é esperar o ano seguinte. Cada temporada tem sua fórmula, e a que ficou para trás não volta.
Quem não deve tomar, e o que esperar depois
Não deve ser aplicada em quem teve reação alérgica grave a um componente da fórmula ou a uma dose anterior. Diante de doença aguda com febre, a aplicação é adiada até a melhora.
Alergia ao ovo deixou de ser contraindicação para a Sociedade Brasileira de Imunizações. O caso continua sendo avaliado antes, mas já não impede a vacinação por si só.
Quem teve Síndrome de Guillain-Barré nas semanas seguintes a uma dose anterior de vacina da gripe decide com o médico.
Nos dias seguintes é comum haver dor, vermelhidão e inchaço no braço, e às vezes dor no corpo, dor de cabeça e cansaço. São reações passageiras. A vacina é inativada e não causa gripe: o mal-estar que algumas pessoas sentem é a resposta do organismo à vacina, não a doença.
Na Dermocentro, em Varginha, a indicação de qualquer vacina passa por avaliação médica antes da aplicação. Nessa avaliação entram o histórico de doses, as condições de saúde, os medicamentos em uso e o momento de vida de cada pessoa, e é isso que define o que se aplica ao seu caso. A aplicação é feita por equipe capacitada, em sala de vacinas com cadeia de frio monitorada.
Sobre este artigo
Sim. A fórmula é atualizada a cada temporada porque o vírus muda, então a dose do ano passado não vale para este.
O número de cepas cobertas. A trivalente cobre três, a tetravalente cobre quatro. A escolha é definida na avaliação.
Não. Criança de 6 meses a menos de 9 anos que se vacina pela primeira vez recebe duas doses, com quatro semanas de intervalo. Depois passa a ser anual.
A partir dos 60 anos há preferência por ela. Na indisponibilidade, a orientação é usar a vacina influenza indicada para a idade. A conduta é definida na avaliação.
Vale enquanto houver circulação do vírus. A dose atrasada protege por menos tempo naquela temporada, mas continua protegendo.
Alergia ao ovo deixou de ser contraindicação para a SBIm. O caso é avaliado antes da aplicação.
Não. É uma vacina inativada. O mal-estar que algumas pessoas sentem nos dias seguintes é a resposta do organismo à vacina.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica. A indicação de vacinas, o intervalo entre doses e as contraindicações são definidos individualmente, em consulta. As informações sobre imunizantes seguem as bulas aprovadas pela Anvisa e as recomendações das sociedades médicas brasileiras.
Fontes:
Sociedade Brasileira de Imunizações (Calendários de Vacinação SBIm Criança, Adulto e Idoso 2026/2027 e nota técnica sobre vacinas influenza no Brasil), Ministério da Saúde e Programa Nacional de Imunizações, Organização Mundial da Saúde e Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
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