Hepatite A e B: quem tem o esquema incompleto e nem sabe
Hepatite A e hepatite B são doenças diferentes, com transmissão diferente e vacinas diferentes. As duas estão no calendário, mas em momentos distintos da vida, e é por isso que tanta gente chega à idade adulta com uma delas pela metade. Este texto explica quem tem indicação, o que já conta na caderneta e quando a vacina combinada resolve as duas na mesma série.
Revisão técnica: Dr. Joelson Reis Ciacci · CRM-MG 18295 · RQE 10983
Publicado em 26/07/2026

Duas doenças com o mesmo sobrenome
Hepatite é a inflamação do fígado. A palavra descreve o órgão atingido, não a causa.
A hepatite A se transmite principalmente por água e alimentos contaminados, e também por contato próximo em ambiente com saneamento precário. Costuma ser um quadro agudo. A pessoa fica doente, com náusea, cansaço, dor abdominal e pele amarelada, e depois se recupera. Não cronifica.
A hepatite B tem outras vias de transmissão, entre elas o contato com sangue e a transmissão da mãe para o bebê no parto. É a que preocupa no longo prazo, porque pode se tornar crônica e comprometer o fígado ao longo de anos, muitas vezes sem sintoma que avise. A infecção crônica está associada a cirrose e a câncer de fígado.
São vírus diferentes, sem parentesco entre si. Ter tido uma não protege contra a outra, e a vacina de uma não cobre a outra.
Por que tanta gente tem o esquema incompleto
A hepatite B entrou no calendário público brasileiro para todas as idades. A hepatite A entrou depois, e em dose única, para a primeira infância.
Quem nasceu antes dessas mudanças pode ter recebido uma, nenhuma ou parte de cada. Adulto que tomou duas das três doses de hepatite B e nunca voltou para a terceira é situação corriqueira. Adulto que nunca ouviu falar da hepatite A, mais ainda.
Some a isso que a hepatite B tem esquema de três doses distribuídas ao longo de seis meses. Esquema longo é esquema que se perde no meio.
O resultado é um número grande de adultos com a caderneta pela metade e a impressão de que está tudo em dia. Ninguém sente falta de uma dose que não sabe que existe.
A vacina combinada, e quando ela faz sentido
Existe uma apresentação que protege contra as duas hepatites na mesma série de aplicações. Ela está disponível na rede privada.
A vantagem é prática. Em vez de duas séries paralelas, com aplicações e datas separadas, a pessoa faz uma série só. Menos aplicações, menos retornos, menos chance de abandonar no meio.
Ela faz sentido para quem precisa das duas proteções. Quem já tem uma delas completa costuma ter indicação da vacina isolada da outra, e essa decisão sai da avaliação, com a caderneta na mão.
O que a rede pública oferece e o que muda na rede particular
A comparação abaixo reúne o que muda entre os dois caminhos.
O ponto que mais surpreende está na segunda linha. O adulto que nunca teve hepatite A e nunca foi vacinado não encontra essa vacina na rede pública em nenhuma idade.
| Rede pública (SUS) | Rede particular | |
|---|---|---|
| Hepatite B | Disponível para todas as idades | Disponível, isolada ou combinada |
| Hepatite A | Dose única aos 15 meses, com recuperação até antes dos 5 anos | Disponível, isolada ou combinada, sem corte de idade |
| Adulto sem hepatite A | Não contemplado | Contemplado |
| Apresentação combinada | Não disponível | Disponível |
| Forma de acesso | Gratuita, na rede pública | Particular, em clínica de vacinação |
Quem tem indicação
Quem não tem as duas em dia. É o grupo maior, e a maioria das pessoas nele não sabe que está nele.
Quem vai viajar. A hepatite A depende de saneamento e de qualidade da água, e destinos com infraestrutura diferente da brasileira mudam o risco. É a indicação que mais leva adulto à clínica.
Quem tem condição de saúde que aumenta o risco. Doença crônica do fígado, entre outras situações, torna as duas infecções mais preocupantes. A hepatite A em quem já tem o fígado comprometido é caso à parte.
Quem tem exposição ocupacional. Profissional de saúde e outras atividades com contato com sangue têm indicação de hepatite B, e essa é uma verificação de rotina que muita gente nunca fez.
Em todos os casos a decisão sai da avaliação, e ela começa pela caderneta.
Doses já aplicadas contam
Esta é a informação que destrava a decisão de quem tem histórico incompleto.
Ninguém recomeça do zero. Doses de hepatite A ou de hepatite B já aplicadas entram no esquema, e o que a avaliação define é o que falta completar.
O número de doses que resta depende de dois fatores: a idade em que a vacinação começou e o que já está registrado. Em linhas gerais, o esquema é mais curto na infância e na adolescência e mais longo a partir de determinada idade, mas o corte exato e a contagem final saem da avaliação, com o documento na mão.
Há também situações em que a pessoa precisa de esquema reforçado de hepatite B, com dose maior ou número maior de aplicações. Nesses casos a combinada não resolve sozinha e entra complementação com a vacina isolada.
Por isso a orientação é simples e vale para todo mundo: leve a caderneta. Ela vale mais que a lembrança, e muda a conta.
Quem não deve tomar, e o que esperar depois
São vacinas inativadas. Não contêm vírus capaz de causar as doenças.
São contraindicadas em caso de reação alérgica grave a algum componente da fórmula ou a uma dose anterior. Diante de doença aguda com febre, a aplicação é adiada até a melhora.
Quem tem alteração de coagulação ou usa anticoagulante precisa de avaliação antes, porque a aplicação é intramuscular profunda.
As reações mais comuns são locais, com dor, vermelhidão ou inchaço. Podem aparecer febre, dor de cabeça, mal-estar, cansaço e náusea nos primeiros dias, em uma parcela pequena dos casos. São passageiras.
Na Dermocentro, em Varginha, a indicação de qualquer vacina passa por avaliação médica antes da aplicação. Nessa avaliação entram o histórico de doses, as condições de saúde, os medicamentos em uso e o momento de vida de cada pessoa, e é isso que define o que se aplica ao seu caso. A aplicação é feita por equipe capacitada, em sala de vacinas com cadeia de frio monitorada.
Sobre este artigo
Não. As doses já aplicadas contam, e a avaliação define o que ainda falta completar. Leve a caderneta.
No adulto, não. A rede pública oferece a hepatite A em dose única na primeira infância, com recuperação até antes dos 5 anos.
A proteção é a mesma. A combinada resolve as duas na mesma série, com menos aplicações. A escolha depende do que já foi tomado.
Depende da idade em que a vacinação começa e do que já consta na caderneta. A contagem final sai da avaliação.
Não como regra. Em algumas situações específicas o médico solicita, e isso é definido na avaliação.
Depende do destino e da data. Mesmo um esquema iniciado com pouca antecedência costuma valer a pena, e a avaliação orienta o que é possível fazer antes da viagem.
Quem teve a doença fica protegido contra ela. A hepatite B continua sendo assunto separado, e a avaliação verifica o que está em dia.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica. A indicação de vacinas, o intervalo entre doses e as contraindicações são definidos individualmente, em consulta. As informações sobre imunizantes seguem as bulas aprovadas pela Anvisa e as recomendações das sociedades médicas brasileiras.
Fontes:
Sociedade Brasileira de Imunizações (Calendários de Vacinação SBIm Criança e Adulto 2026/2027), Ministério da Saúde e Programa Nacional de Imunizações, Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
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